Comemorar a Semana do Meio Ambiente? Uma resposta ao GEI-UFMG

by A. P. Aguiar (Jornal da Ciencia E-mail, No. 1285, 1999)

Meus sinceros aplausos ao Grupo de Estudos Interdisciplinares da UFMG (GEI-UFMG no texto a seguir) pelo artigo de 20/5 (JC E-Mail 1282), que se destaca não apenas pelo excelente conteúdo e nivel de argumentação, e louvável iniciativa, mas também pela legitimidade e nobreza de suas intenções e aspirações.

Permitam-me, contudo, aceitar o convite para discussão, e levar ao teclado as mesmas mãos que aplaudiram para tecer alguns comentários e contra-argumentações.

Perdoem-me os leitores, contudo, pelas imperfeições gramaticais, e mesmo de lógica, inevitáveis num texto composto as pressas, ao longo do pouco tempo livre de que pude dispor.

A dinâmica energética do planeta, é, indubitavelmente, um dos pontos mais importantes para o sucesso -ou fracasso- de qualquer intenção, seja ela delicadamente inconsciente, como um piscar de olhos, seja ela tetricamente bem planejada, como a expansão de uma nação as custas da exaustão de outras.

Crescimento e estagnação, conhecimento e ignorância, dor e prazer -- todos dependem inexoravelmente de como essa dinâmica é compreendida e manipulada.

Nos preocupar com, e atuar sobre o assunto, portanto, não é apenas um exercício intelectual, ou uma questão de sobrevivência. É também uma questão de dignidade, e soberania.

Ali Mazrui, professor emérito de Estudos Africanos na Columbia University (NY, EUA), observou muito bem, em um de seus artigos, que o sucesso de uma nação hoje, ao contrario das civilizações antigas, relaciona-se muito melhor ao "quem sabe o que" do que ao "quem tem o que." Ou seja, ser uma potência energética nunca foi tão inútil sem o conhecimento necessário para reter e utilizar essa energia.

Os norte-americanos aprenderam cedo esta lição, e hoje empanturram-se a ponto de esbugalhar os olhos, desfrutando e controlando cerca de 45% dos recursos mundiais (comida, metais e minerais, eletricidade, gás, derivados de petróleo etc.), enquanto perfazendo meros 4% da população mundial.

Tem realmente algo de podre na republica do Tio Sam, mas seria, contudo, inocente e suicida acreditar que estes recursos foram parar nos EUA por exclusiva ganância, mas intenções, ou qualquer outra suposta "falta de virtude" de tal povo.

O fato é que cada nação faz o que faz acreditando piamente, e honestamente, que seus objetivos são nobres, verdadeiros, justos. Estão estas nações (incluindo a nossa) certas ou erradas? A resposta não é simples, e tão pouco linear como um banal "sim" ou "não."

Se o ser humano for mesmo essencialmente bom, como acreditava Thomas Jefferson, a resposta para a questão acima seria fácil: Estamos todos certos, e nossos erros advêm apenas de nossa ignorância.

Em todo caso, se somos mesmo essencialmente bons eu não sei, mas que agimos sempre acreditando, sem qualquer duvida, que o somos, ah sim, disso eu tenho plena certeza.

Não que a humanidade seja necessariamente arrogante, mas talvez, e simplesmente, crédula demais, e filosofa de menos. O problema é que esta crença inata do indivíduo humano na legitimidade do próprio valor, ganha corpo e poder quando indivíduos agrupam-se em famílias, comunidades, cidades etc.

E este processo, surpreendentemente, não termina envolvendo todo o planeta. Conclui-se, antes, ao nivel de cada nação, finalmente tomando vida sob a forma do que chamamos de "modus vivendi" de cada pais.

E é aqui, no meu entender, que surge a mais seria dificuldade: Concatenar o que a humanidade como um todo, por experiência, interação, e senso comum, tem como "certo" ou como "verdades universais" (e.g., direitos humanos, o valor do conhecimento, a superioridade da cooperação vs. competição, o desenvolvimento sustentável etc.) e os bens e conhecimentos que cada nação detém, e sobres os quais, invariavelmente, acredita ter inalienável direito, por ter "feito por merecer", por ter "trabalhado duro para conseguir."

Como então, tal como o GEI-UFMG propõe, esperar que qualquer um, por mais abastado que seja, vá contribuir com uma "redução drástica de seu consumo energético," ou com uma "modificação drástica e profunda no modelo atual de desenvolvimento baseado no acumulo de capital (=energia)", para usar as mesmas palavras de meus nobres colegas?

Como esperar que alguém, ou alguma nação, "abra mão" daquilo que irredutivelmente acredita ter conseguido "a duras penas" e com o "suor do próprio rosto" -- seja este o caso ou não? Ou alguma nação não pensa assim?

Como definir um "minimo digno" para cada um, para cada povo? Quanto papel merece um escritor? Quanto papel ele acha que merece? Quanta energia merece o Brasil? Quanta energia estamos dispostos a compartilhar?

E como propor a uma nação que se reproduza significativamente menos? Sim, os chineses tem um severo controle de natalidade. Na China. É notório o fato de que muitas famílias chinesas investem pesadamente em sair do pais especificamente para poder se reproduzir livremente.

Além do mais, numero de pessoas pode ser um problema ambiental, mas é, em vários aspectos, também uma vantagem para o pais, pois representa não apenas maior influência política no cenário mundial, mas também uma maior oferta de "genotipos" de onde indivíduos superdotados em suas funções como artistas, intelectuais, cientistas, e outros grupos de importância estratégica para o pais, vão se originar.

Pergunte aos canadenses se eles estão dispostos a contribuir para reduzir o problema de superpovoamento do planeta. Pergunte o mesmo a uma família chinesa. A resposta é não.

Não discordo, em tese, das excelentes colocações do GEI-UFMG, mas me posiciono respeitosamente cético, ciente dos limites que minha própria ignorância me impõe, quanto a anunciada praticabilidade delas.

Sim, o cidadão norte-americano consome 11 vezes mais do que um cidadão de um pais subdesenvolvido, e produz 400 vezes mais lixo per capta por ano do que, por exemplo, o cidadão médio da paupérrima Madagascar. Mas experimente perguntar aos norte-americanos se eles acham que estão errados, que precisam mudar, ou que não merecem cada milímetro da privilegiada situação em que vivem. Vão espirrar listras vermelhas e azuis, e estrelinhas, para todo lado.

Nossa crença em nossos empreendimentos, sejamos nos um único e miserável indivíduo, sejamos nos uma grande e poderosa nação, representam um dos valores mais caros que trazemos conosco ao longo de nossa existência. Estejam elas sutilmente certas ou brutalmente erradas, o mais provável é que iremos para o túmulo com elas antes de descobrir, ou de conseguir aceitar uma verdade negativa sobre elas.

Em minha visão, provavelmente um tanto distorcida e equivocada por estar baseada muito mais em lógica pessoal do que em conhecimento acadêmico, alguns subprodutos civilizatórios são inevitáveis, e a brutal desigualdade social que o mundo sempre conheceu, é, e sempre será, uma delas.

Vivemos num sistema fechado -- o planeta Terra --, onde, por esse mesmo motivo, a riqueza de um vai se traduzir, inescapavelmente, na pobreza de muitos outros. E a busca da riqueza, e com ela os ricos, em matéria ou intelecto, sempre existirão, pois "ganancia" ou "ambicao" certamente não parecem como tal, ou não parecem tão negativas assim, ao indivíduo humano, que sempre honestamente pensa estar fazendo o "seu melhor." E certamente não pensam ser parte, quanto mais razão, do problema, aqueles indivíduos ou nações que finalmente "chegaram la".

Existe alguma saída, então? A despeito de minhas colocações aparentemente pessimistas (na realidade, apenas contra-argumentações), estou certo que sim.

Mas será preciso, antes, que outras mãos, as mesmas mãos que apontam erros, ou que aplaudem, mergulhem em seu domínio de vinte e três letras, e permitam aos ideais de seus donos, por mais imperfeitos que sejam, correrem o mundo.


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