"A verdade é que a racionalidade do Homem, aliada ao conhecimento dos fatos, muitas vezes nos leva a questionar se não é melhor sermos ignorantes para conseguirmos viver dentro de uma realidade."
(A. C. Venturini, numa carta ao autor)O sapiens de nossa espécie
Para qualquer brasileiro que um dia procurou se informar e se importou com a situação de nosso país, nossas florestas, nosso povo e futuro, o questionamento acima acaba sempre se fazendo presente, mais cedo ou mais tarde. Mas se nos traz dor, questionamentos, preocupações e frustrações, por que então continuamos? Por que buscamos mais e mais conhecimentos? Embora apenas desabafando, Venturini apontou, com precisão filosófica, para um ponto vital: tão importante quanto buscar e gerar conhecimentos, é saber porque o fazemos.
A função mais básica do conhecimento é biológica: o que nós e outros animais aprendemos nos auxilia na peleja pela sobrevivência. Contudo, uma vez satisfeitas as necessidades do corpo, o conhecimento humano, ao contrário daquele de outros animais, continua prosseguindo indefinidamente. De fato, nossa busca incessante por mais do que apenas satisfazer as necessidades do corpo constitui a mais importante das características que nos define como humanos. Tão importante, que escolhemos esta característica para dar nome a nossa própria espécie.
O passo seguinte do conhecimento é fazer previsões. Para facilitar a compreensão deste ponto, consideremos um gráfico qualquer. A partir de tres ou quatro pontos é possível traçar uma curva que explica (e faz previsões) sobre a tendência daqueles pontos. A capacidade de previsão do conhecimento funciona de modo semelhante. Depois de alguns pontos bem esclarecidos serem "plotados" no gráfico da mente, é possível traçar uma "curva" que indica aonde a coisa pode ir parar. O problema é que quando traçamos estas curvas para a humanidade, para o Brasil, e mesmo para muitos de nossos objetivos pessoais, muitas vezes não gostamos nada nada da trajetória que elas tomam.
É preciso notar, contudo, que como em qualquer gráfico, quanto mais pontos melhor. O que era uma tendência no início, pode se tornar outra completamente diferente se mais pontos (ou seja, conhecimentos), forem adicionados. E eis aqui o primeiro dos motivos de nossa busca incessante por conhecimentos: nos mostrar as tendências, e assim nos ajudar a fazer as escolhas certas. Que opção profissional seguir? Como utilizar e preservar nossas florestas? O modo como guiamos nossas decisões depende enormemente do que conhecemos sobre o assunto. As curvas que mostram uma tendência ruim, as descartamos; aquelas que prometem sucesso, investimos nelas. Sem conhecimento, nossas decisões se aproximam cada vez mais de um medonho "cara ou coroa."
Torna-se óbvio, portanto, que quanto menos pontos (conhecimento), maiores as nossas chances de estarmos errados sobre a tendência observada, e assim condenarmos ao fracasso as nossas escolhas, investimentos, opiniões, e tanto mais. Mas esta ainda é uma função puramente utilitária do conhecimento. A razão de nossa busca é ainda mais profunda.
Mito, Religião, e Ciência: vozes de um mesmo desejo
É um ponto óbvio que todos desejam ter conhecimento. Mas são pouquissimos, contudo, os que se dão conta de que este desejo é a crença mais forte, mais universal, e mais constante entre nós humanos. Este é o fundo de nosso mergulho: conhecimento traz significado à existência, e este significado é essencial à vida.
Por que essencial? Porque não existe dor maior, ou incômodo mais constante, do que a ignorância. "Não saber" é vergonha, desgraça, ou pecado, em qualquer filosofia, e é a única falha que nós humanos não perdoamos em hipótese nenhuma, nem no outro, nem em nós mesmos.
E foi ao longo deste processo, da busca do conhecimento, que desenvolvemos nossa própria explicação para as coisas, fosse ela via mito, religião, ou ciência. De fato, estes tres, cada um a seu modo, procuram atingir a mesma coisa: explicar passado, presente, e futuro da matéria e pensamentos, e nos livrar da dor do "não saber", dos "por que's" sem resposta.
E é exatamente aqui que uma importante correlação começa a aparecer entre mitos, religião e ciência. É a ponta de um enorme iceberg que poucos de nós percebemos ao longo deste imenso oceano que chamamos vida. Luneta em mãos, portanto, continuemos em nosso esforço para ver mais adiante.
Foi sempre com imensa sinceridade que o ser humano procurou explicações para o seu mundo e si mesmo. E foi essa busca que gerou e continua gerando conhecimento. Mas esse conhecimento se desenvolveu em pelo menos quatro etapas distintas, e obrigatoriamente nesta ordem de aparecimento: cultura, mito, religião e ciência.
A palavra cultura tem uma conotação muito diferente na sociedade atual, mas originalmente pode ser entendida apenas como "um conjunto de conhecimentos práticos". Certas populações de elefantes na África, por exemplo, tem memorizadas uma série de rotas para encontrar água em diferentes estações do ano, envolvendo uma área de milhares de Km2 e centenas de kilômetros entre cada oásis. Este conhecimento não é instintivo, precisou ser aprendido e passado de pai para filho, e é típico apenas de cada população em particular, e não da espécie como um todo. Cultura, portanto. Diferentes populações de chimpanzes também tem sua própria cultura (Whiten et al. 1999. Culture in chimpanzees. Nature 6737: 682-685). Alguns grupos selecionam um toco e uma pedra para quebrar nozes, outros mastigam folhas para criar uma "esponja" que introduzem em cavidades estreitas com água de chuva, encharcando a esponja e assim conseguindo beber água, e vários outros comportamentos e ferramentas são também específicos à diferentes populações destes bichos.
Com seres humanos não foi diferente. Acumulamos conhecimento prático sobre o mundo ao redor. Mas nossa diferença foi a linguagem. Ao criar palavras para descrever o mundo, criamos também a possibilidade de combinar essas palavras e gerar questões que animais sem linguagem jamais irão elaborar. Por exemplo, ao inventar a expressão "como?" para perguntar como fazer ou conseguir isso ou aquilo, e a palavra "céu" para nos referirmos ao espaço acima de nós, a combinação "como céu?" era iminente. E aí começaram nossos problemas. Como explicar o que não podíamos testar, replicar?
A primeira tentaviva veio com o mito: uma série de crenças isoladas, que tentavam explicar o que não podia ser explicado na época, em geral usando a uma lógica intuitiva: o animal sendo perseguido sumiu de vista repentinamente. Ou a tal cobra surgiu do nada, sem que ninguém a tivesse visto antes. Então são animais mágicos. Nada mais lógico. O termo camuflagem não podia ser usado como explicação, porque o conceito sequer existia. Materializar-se ou desaparecer, contudo, eram conceitos imediatos, derivados de observação. Mito, portanto, era a melhor explicação.
A religião veio como uma forma mais organizada, e mais elaborada, do mito, pois envolve uma lógica e uma estrutura muito mais rigorosa, e conecta todos aqueles mitos isolados numa coisa só. O mundo faz ainda mais sentido: esse mito acontece por causa daquele outro, estes dois explicam um terceiro, e assim por diante.
Mas com a lógica mais formal utilizada na religião, os conflitos dos mitos tornaram-se mais aparentes, e aí a religião gerou seu ingrediente filosófico mais importante: a fé. A fé implica, entre outras coisas, que o que não tem explicação agora, pode ter mais tarde. Com isso, mitos colecionados e organizados passaram a ser verdade "até que provem o contrário." Fascinante! Agora a lógica e investigação podiam, ao menos em tese, prosseguir sem a necessidade de abandonar as explicações que tanto necessitávamos (e ainda necessitamos) para as coisas de difícil explicação. E fé, deste modo, equivale a acreditar e lutar por alguma coisa, em persistir, em insistir. Qualidades de óbvio valor.
Mas foi o conceito de fé que dividiu a humanidade. Todo o processo de lógica, observação e experimentação que vinha sendo utilizado no processo de criação e evolução da cultura e mitos, chegou a um limite na religião. Acreditar que um determinado conjunto de crenças é "verdade até que provem o contrário" implica inexoravelmente que tudo mais que possa ser pensado está "errado até que provem ao contrário," ou até que se encaixe na idéia preestabelecida. E foi assim que acreditar que a Terra gira em torno do Sol foi uma vez uma perigosa heresia, motivo de ridículo e coisa de "ateu", ao invés de ser apenas mais uma boa idéia a ser checada. E assim é que falar em evolução das espécies ainda é assunto proibido em alguns lugares, e vira motivo de discórdia, ao invés de discussão produtiva.
Bem verdade é que mitos continuam existindo, e que a religião continua forte porque criou sua filosofia única (a fé), que tem o seu valor. Mas o ponto central, aquele fato que poucas pessoas conseguem ver, é talvez o mais importante para nós: mitos e religiões derivaram exatamente da filosofia hoje em grande parte antagonizada por elas, a ciência! Sem a observação original do animal que "desapareceu", ou da cobra que "surgiu do nada", sem uso da lógica, sem repetição, replicação, e testabilidade, cultura, mitos e religiões -conhecimento enfim- jamais teriam surgido. Sem um mínimo de ciência, qualquer explicação serviria para qualquer coisa, e não haveria justificativa convincente para se acreditar em coisa nenhuma. Viveríamos em eterna escuridão.
A ciência como entendemos hoje é aquela com seu conjunto de métodos e princípios, com seus rigores técnicos, suas leis e idealismos. Mas esta ciência não deixa de ser, mesmo com suas falhas (ou talvez especialmente por causa delas), menos humana, ou menos parte do que somos e pretendemos ser ou entender. De fato, nossa ciência é a filha primogênita daquele modo de pensar, investigar, testar, e buscar explicações que nossa espécie um dia descobriu quando, num longinqüo e esquecido momento, fitou os olhos no infinito, e finalmente conseguiu perguntar a si mesmo: "Por que?"