Por quem canta a Iara? Uma metáfora em verde e amarelo

by A. P. Aguiar (OriginalisNatura)

Vive dentro de mim, como num rio,

Uma linda mulher, esquiva e rara,

Num borbulhar de argênteos flocos, Iara

De cabeleira de ouro e corpo frio.



Entre as ninféias a namoro e espio:

E ela, do espelho móbil da onda clara,

Com os verdes olhos úmidos me encara,

E oferece-me o seio alvo e macio.



Precipito-me, no ímpeto de esposo,

Na desesperação da glória suma,

Para a estreitar, louco de orgulho e gozo...



Mas nos meus braços a ilusão se esfuma:

E a mãe d'água, exalando um ai piedoso,

Desfaz-se em mortas pérolas de espuma.


[Olavo Bilac]



Precisas palavras, elegante eloqüência, e uma impecável insinuação de sons e sílabas, inspiram um rápido e ritmado vôo. Por alguns segundos, Iaras existem, e poucos são os que não se encontram "aterrissando" ao final da leitura. Uma bela e brasileirissima lenda.

Alguns vão discordar do superlativo, argumentando que Iara é uma imitação das sereias dinamarquesas. Talvez. Mas não são as Iaras espécies endêmicas no imaginário nacional? Não estão elas ausentes dos rios, matas e corações da Dinamarca, e de todos os outros exceto os brasileiros? São pois, as Iaras, tão nossas quanto nossos nomes.

Mas, alas, não é apenas a Iara-sonho que intriga nesse poema de Olavo Bilac. É também a possível equivalência, quase visionária, mesmo se não originalmente intencional, entre a Iara bilaceana e seu próprio habitat, as florestas brasileiras.

Há muito estamos cientes de que vive em nossa terra e em nossos rios uma soberba floresta, esquiva e rara. De fato, o encanto e promessas de seus verdes olhos úmidos foram tanto, que atrairam irresistivelmente a um povo do outro lado do Atlântico. E assim foi que, fétidos e deficientes (em corpo e intenções), aqui chegamos.

Mas desde o nosso primeiro Abril, do lado oposto permanecemos. Quinhentos anos, e argênteos flocos e ouro ainda dominam nosso ímpeto. E nos alvos seios devastados da mãe terra continuamos insistindo em deitar raizes cada vez mais estranhas, que ali nunca dormiram, e por isso mordem ao invés de beijar.

Forte como um mito, contudo, a floresta-Iara ainda vive. E como na segunda estrofe do poema, ainda nos atrai, ainda nos incita à ação, ainda nos promete mais do que podemos imaginar. Inacreditável a nossa sorte.



Mas após sangrar por séculos, em jorros vermelhos que deram nome à nossa pátria, por que ainda canta a Iara? À procura de quem ainda ecoa infindo e esplêndido encanto?

Pero Vaz de Caminha, descrevendo leões e monstruosidades. Surdo. Fernão dias Paes Leme, caçando esmeraldas na impenetrável ignorância de que o verde mais valioso é o que o se encontra sobre a terra, e que sobre ela permanece. Surdo. Spix, Martius, St. Hilaire, Alexandre Rodrigues Ferreira. Agudos ouvidos felinos. A lista é interminável, como (vergonhosamente) um estrangeiro precisou nos mostrar, à ferro e fogo.

Com tantas más experiências, não surpreende ser nossa Iara tão esquiva, tão reticente em ceder seus seculares segredos. Compreensível que ela se faça cada vez mais rara.

Mas e o povo deitado em berço esplêndido? Ainda não acordou? Será que usa o canto da Iara como canção de ninar, para perpetuamente sonhar, e sonhar apenas, com o grandioso futuro?

Turvos tornaram-se os espelhos de nossas águas. Miramo-nos agora em nosso mal pago suor, e nos vemos exaustos, de mãos calejadas e vazias, caçados pelos desejos que caçamos, frustrados ao ler tantas teses sobre a preguiça tropical, escritas por povos que trabalham de 9 às 5. Praticamente convencidos de que nossos algozes estão mesmo com a razão, cobrimos o rosto com um lençol barato, e sonhamos com sereias dinamarquesas.

Mas até quando? Funcionará mesmo viver "um dia de cada vez"? Mentes cimentadas no presente não tem futuro. Ponhamo-nos a prumo, portanto, pois este sono não tem mais como durar outros quinhentos anos. Tem fim marcado, e em duas opções. A primeira é a default: algozes executam, e o empreendimento será fácil como cortar manteiga se continuarmos insistindo na idéia da Nação-berçário.

A segunda é perceber, em meio ao torpor soporífero e dourados delírios, que a canção que ouvimos não é de ninar. É por nós, brasileiros e brasileiras, que ressoa nossa mãe floresta, Iara.

Canta, não em libido descontrolado, não engendrando ciladas mágicas ou bruxedos tropicais. Por isso tantas buscas em vão, por isso tantas vezes a ilusão se esfuma, e um ai piedoso é tudo que alcançamos.

Canta, sim, em súplica pelo nosso bom senso, em sábia e final insistência para que abandonemos a hipocrisia de competir em favor do mogno da cooperação, e pela vital necessidade de lutarmos por uma causa que, afinal de contas, é a nossa própria.

Ouvir, portanto, será não apenas fazer valer nossa grandiosidade, e evitar o karma de covardia moral, mas também gerar a chance única que temos de um dia poder cultivar sonhos, estes sim, realizáveis ao som do mar e à luz do céu profundo.

Abracemos, pois, aquele mesmo desejo que nos moveu até aqui, que nos convenceu serem ciência, arte e literatura candelabros num mundo assombrado por ignorância. Empenhemo-nos em ajudar nossas mãos e intenções a materializar ideais, e resgatá-los da mediocridade do silêncio. Pensar "eu consigo" não basta; é preciso fazer. Assim nos permitiremos, no mínimo, honrar a mais básica função da existência, conseguindo fazer de nós mesmos verdadeiros cientistas, artistas, escritores, e tantos outros. Mortais indispensáveis, enfim.

Mais do que nunca nos é essencial cumprir a dívida de excelência que nossa corajosa escolha (viver) nos impõe, e assim atingir definitivamente mais do que apenas viver como desajeitados e ineficientes canibais de prazer. Pois o doce mel, bem demonstram as abelhas, só é farto quando ação, conhecimento e cooperação estão presentes em todos os indivíduos, e quando cada um valoriza e se posiciona seriamente sobre o que tem.

Prossigamos então, pelos próximos mil anos, não como passageiros da história, mas como um de seus progenitores. O berço para isso, já o temos. Resta-nos conquistar, com suor e candor, uma esquiva Iara.

Só assim conseguiremos evitar que num futuro preocupantemente próximo a realidade de nossas florestas e, por conseguinte, de nossa alma, não se torne apenas mais uma inatingível lenda, ecoando em antigas poesias ou esquecidas publicações, escritas em úmidos verdes, mas para sempre perdidas no amarelo-pérola do tempo.


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| Alexandre Pires Aguiar |